Como se despertam as perguntas últimas. - Reuniões - Educar Para Vida
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Como se despertam as perguntas

Reunião realizada em Maio de 2015

Tema:
COMO SE DESPERTAM AS PERGUNTAS.

O ITINERÁRIO DO SENSO RELIGIOSO

Dissemos que, independente da nossa condição social, política, cultural, etc., cada homem e cada mulher carrega em si um conjunto de perguntas elementares, que nos levam a buscar um significado para a própria vida.

Dissemos também que vivemos em um mundo que tente apagar em nós a busca pelas respostas a essas perguntas, tentando reduzir a grandeza do “coração” humano.

Mas, se essas perguntas últimas são constitutivas da consciência humana e vivemos em um mundo que tenta sufocá-las, como elas podem ser continuamente despertadas? A resposta a esta pergunta obriga-nos a identificar a estrutura da reação que o homem tem diante da realidade. Se o homem se dá conta dos fatores que o constituem observando a si mesmo em ação, para responder a essa pergunta é preciso observar a dinâmica humana no seu impacto com a realidade, impacto que põe em movimento o mecanismo revelador dos fatores. Um indivíduo que tenha vivido pouco o impacto com a realidade, porque, por exemplo, teve pouco esforço a realizar, terá um escasso sentido da própria consciência, perceberá menos a energia e a vibração da sua razão.

Na descrição que iniciamos, os fatores identificados no mecanismo participam, de certa forma, como numa seqüência cronológica.

Antes de mais nada, para ser compreendido, quero provocar a imaginação. Suponhamos estar nascendo, saindo do ventre de nossa mãe com a idade que temos neste momento, no sentido de termos desenvolvimento e consciência como os possuímos agora. Qual seria o primeiro sentimento em sentido absoluto, isto é, o fator primeiro da nossa reação perante o real? Se eu abrisse pela primeira vez os olhos neste instante, saindo do seio de minha mãe, ficaria dominado pela maravilha e fascínio das coisas, como de uma “presença”. Seria atingido pela reação estupenda a uma presença que é expressa no vocabulário corrente com a palavra “coisa”. As coisas! Que “coisa”! O que é uma versão concreta, banal, se preferirem, da palavra “ser”. O ser: não como entidade abstrata, mas como presença que não é feita por mim, mas que encontro, uma presença que se impõe.

Quem não crê em Deus é indesculpável, dizia São Paulo, na Carta aos Romanos (Rm 1,19-21), porque deve renegar este fenômeno original, esta experiência original do “outro”. A criança vive sem dar-se conta dessa experiência porque ainda não está totalmente consciente; mas o adulto que não a vive ou não a percebe como homem consciente é menos que uma criança, é como que atrofiado.

O fascínio, a maravilha dessa realidade que se impõe, dessa presença que me toma, está na origem do despertar da consciência humana.

O maravilhamento absoluto está para a inteligência da realidade de Deus, assim como a clareza e a distinção estão para a compreensão das idéias matemáticas. Sem maravilhamento ficamos surdos ao sublime  (Heschel, A.J., Dio Allá ricerca dell’o uomo. Torino, Borla, 1969, p.273-274).

Por isso, o primeiríssimo sentimento do homem é o de estar diante de uma realidade que não é sua, que existe independentemente de si e da qual depende.

Traduzido empiricamente, é a percepção original de um dado. A realidade nos é dada, é um dom.

A palavra “dado” é vibrante de uma atividade, diante da qual permaneço passivo: e é esta passividade que constitui a minha atividade originária, a de receber, constatar, reconhecer.

Certa vez, dando aula, perguntei à classe: “Segundo vocês, o que é a evidência? Quem de vocês poderia defini-la?” A classe permaneceu calada por muito tempo; depois, um jovem respondeu: “A evidência é uma presença inexorável!” Dar-se conta de uma presença inexorável! Abro os olhos diante desta realidade que se impõe, que não depende de mim, mas da qual dependo, que é o grande condicionamento da minha existência; se preferirem, o dado.

É esse maravilhamento que desperta a pergunta última dentro de nós: não é um registro frio, mas um maravilhamento cheio de atração, como uma passividade em que, no mesmo instante, concebe-se a atração.

Há outra grande palavra que deve ser lembrada agora para esclarecer ulteriormente o significado do “dado”: é a palavra “outro, alteridade”. Para retomar uma imagem já empregada, se eu nascesse com a consciência atual dos meus anos e abrisse os olhos pela primeira vez, a presença da realidade se revelaria como presença de “outro” além de mim.

A dependência original do homem é bem indicada na Bíblia, no dramático diálogo (“duelo”) entre Deus e Jó, depois que este se entregou ao seu lamento rebelde. Por dois capítulos Deus o persegue com suas perguntas radicais e parece-nos ver Jó fisicamente minguando, como se quisesse desaparecer diante da impossibilidade de uma resposta.

Então Iahweh respondeu a Jó, do seio da tempestade, e disse:
Quem é esse que denigre meus desígnios
com palavras sem sentido?
Cinge-te os rins, como um herói,
vou interrogar-te e tu me responderás.
Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?
Dize-mo, se é que sabes tanto.
Quem lhe fixou as dimensões? — se o sabes — ,
ou quem estendeu sobre ela a régua?
Onde se encaixam suas bases,
ou quem assentou sua pedra angular,
entre as aclamações dos astros da manhã? (...)
O censor de Deus irá responder? (Jó 38,1-7. 40,2)

Não há nada de mais adequado à natureza do homem do que ser possuído para uma dependência original: efetivamente, a natureza do homem é a de ser criado.

Neste primeiro fator identificado existem três aspectos: O primeiro é o da “alteridade”, ou do “dado” como coisa genericamente entendida, a realidade. Num momento seguinte distingo nessa realidade rostos e coisas. E só num terceiro momento dou-me conta de mim mesmo.

As distinções vêm depois, e a última é aquela que percebe o eu como coisa distinta das demais.

A trajetória psicológica do homem confirma isto, porque a percepção de si como “distinto de” acontece num certo ponto da evolução da sua própria consciência. Chega-se à percepção de si mesmo enquanto “dado”, enquanto “feito”, como último passo dentro da percepção da realidade como “coisa” e como “coisas”.

A primeira intuição original, portanto, é a maravilha do dado e do eu enquanto parte desse dado, existente. Primeiro somos atingidos, depois nos damos conta de nós atingidos. É daqui que se origina o conceito da vida como dom, sem o qual não conseguimos usar as coisas sem deixá-las áridas.

Quando foi que você se maravilhou diante de algo? Quando esse maravilhamento te fez pensar em Deus? Por que?

(Texto baseado no livro “Senso Religioso” de Luigi Giussani,
Cap. X, Ed. Nova Fronteira, 2.000)

 

 

Música Tema da Reunião

 

Deus e eu no sertão
Autor:Victor e Leo

Nunca vi ninguém
Viver tão feliz
Como eu no sertão

Perto de uma mata
E de um ribeirão
Deus e eu no sertão

Casa simplesinha
Rede pra dormir
De noite um show no céu
Deito pra assistir

Deus e eu no sertão

Das horas não sei
Mas vejo o clarão
Lá vou eu cuidar do chão

Trabalho cantando
A terra é a inspiração
Deus e eu no sertão

Não há solidão
Tem festa lá na vila
Depois da missa vou
Ver minha menina

De volta pra casa
Queima a lenha no fogão
E junto ao som da mata
Vou eu e um violão

Deus e eu no sertão
Próxima Reunião